As últimas décadas foram marcadas pela transformação digital em resultado da generalização do acesso à internet. Esta transformação provocou alterações nas relações sociais fundamentalmente pelo surgimento das redes sociais. Atualmente a transformação digital está a intensificar-se com a inteligência artificial.
Esta alteração trouxe enormes vantagens, mas também novos desafios, incluindo novas formas de violência.
O abuso ou violência digital refere-se a qualquer ato cometido, auxiliado, agravado ou amplificado pelo uso de tecnologias de comunicação ou outras ferramentas digitais, de que resultem ou possam resultar danos físicos, sexuais, psicológicos, sociais, políticos, económicos ou outras violações de direitos e liberdades.
Entre os dias 25 de novembro e 10 de dezembro de 2025 decorreu a campanha global #noexcuse contra esta forma de violência.
Esta iniciativa inseriu-se na campanha #orangetheworld que é uma campanha global contra a violência sobre as raparigas e mulheres que adotou a cor laranja como símbolo de um mundo livre de violência.
A violência digital é violência real. Algumas destas formas de violência começam nas escolas. As Nações Unidas apelam aos professores que aprendam a reconhecer e interromper padrões de violência digital nas comunidades educacionais.
O idadismo digital consiste no estereótipo (como pensamos) de que as pessoas idosas não têm capacidade ou interesse pela utilização das novas tecnologias.
Este estereótipo incorpora uma generalização relativamente às pessoas idosas. Os idosos não são todos iguais. São um grupo heterogéneo que inclui pessoas com diferentes competências e interesses. Aspetos como um passado profissional que incluiu a utilização da informática, a situação económica, a área de residência ou o estado de saúde têm influência na utilização das novas tecnologias pelas pessoas idosas.
A ideia de que as novas tecnologias não são para os mais velhos leva a que os idosos não sejam considerados um grupo relevante e estejam sub-representados na conceção das aplicações. As aplicações são pensadas apenas para os jovens ou para as pessoas em idade ativa. Este aspeto é contraditório porque em consequência do envelhecimento da população os idosos têm cada vez mais importância demográfica e social.
Os estudos demonstram que a inteligência artificial pode ser tendenciosa relativamente às pessoas idosas. A idade é geralmente abordada na perspetiva das gerações mais novas. As questões relacionadas com o envelhecimento e a realidade das pessoas idosas não são predominantes. A discriminação em razão da idade não é tratada com a mesma importância da discriminação pela raça ou género.
Nas redes sociais a representação da idade é marcada pelos excessos. Umas vezes o envelhecimento é descrito apenas como uma fase de decadência, doença e dependência. Outras vezes é descrito de uma forma excessivamente positiva baseada acriticamente nas conceções do envelhecimento positivo em que os idosos são todos saudáveis e ativos. Também existem os nold – never old – que são aqueles que sabem que já não são jovens mas sentem que não envelhecem e consideram que estão sempre a meio caminho entre a juventude e a velhice.
É frequente a referência aos idosos como um fardo para os serviços públicos e a economia.
Por seu lado, o discurso excessivamente positivo leva a afirmações irrealistas e distorcidas sobre o envelhecimento e à negação de que as pessoas idosas têm vulnerabilidades e necessidades específicas, o que justifica uma desresponsabilização coletiva.
Estas novas formas de violência contra os idosos não podem ser ignoradas. A transformação digital e as redes sociais têm inegáveis aspetos positivos. As redes sociais permitem que movimentos que de outra forma seriam locais e restritos ganhem uma dimensão global. No entanto, importa acautelar que a sua utilização é solidária e inclusiva e não serve para a propagação de discursos de ódio e hostilidade contra grupos determinados como os idosos.
Como afirmou recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas António Guterres:
A inovação deve fechar as divisões – não ampliá-las.