O silêncio tem voz

Contamos com todos

Sobre nós

A campanha o silêncio tem voz é uma iniciativa organizada pela Comissão de Proteção ao Idoso com o apoio da Jerónimo Martins.

Esta campanha é realizada anualmente desde 2019 e está na 6ª edição.

A Comissão de Proteção ao Idoso é uma associação de defesa e promoção dos direitos da pessoa idosa.

A Jerónimo Martins reconheceu o valor do nosso projeto e tornou-se parceira nesta iniciativa.

O objetivo é uma campanha de sensibilização dos jovens contra a violência sobre os idosos.

A campanha irá decorrer na semana de 8 a 12 de junho nas escolas que se inscreveram para coincidir com o dia 15 de junho que é o dia mundial de consciencialização para a violência contra a pessoa idosa.

Serão fornecidos elementos de apoio e filmes através desta página para serem utilizados pelos professores e alunos.

O tema das Nações Unidas para os idosos no ano de 2025 é pessoas idosas: impulsionando a ação local e global.

Este tema está relacionado com movimentos como o age loud para as pessoas idosas da Amnistia Internacional.

A campanha insere-se nestes movimentos. Pretendemos aprofundar o conhecimento, estimular o debate e criar uma dinâmica de valorização da pessoa idosa numa cultura de não violência, solidária e inclusiva.

O silêncio que nos obriga: um apelo à proteção dos idosos

Há silêncios que protegem e há silêncios que ferem. Há silêncios que escondem sabedoria, memórias e serenidade. Mas há também silêncios que escondem medo, vergonha e dor. Entre os nossos idosos, esse silêncio doloroso tornou-se demasiado frequente. Esconde-se nos gestos pequenos, nas respostas vagas, nos olhares que evitam confrontos. Esconde-se na resignação de quem aprendeu, ao longo da vida, que talvez seja melhor não incomodar, não reclamar, não pedir ajuda. Contudo, esse silêncio fala e diz-nos mais do que imaginamos. Diz-nos que falhámos enquanto comunidade sempre que deixámos a solidão instalar-se como companhia, que falhámos sempre que permitimos que a violência, a exploração ou a negligência se infiltrassem nos dias dos mais velhos sem que ninguém desse por isso. É para responder a esse silêncio que nasce a campanha O Silêncio tem Voz, da Comissão de Proteção ao Idoso: porque nenhuma sociedade democrática pode permitir que a dor se disfarce de silêncio impune.

Esta campanha quer retirar o véu a tudo aquilo que se esconde por detrás da mudez involuntária dos idosos. O silêncio da violência doméstica não denunciada. O silêncio da exploração financeira dissimulada em falsas ajudas. O silêncio do abandono emocional que corrói por dentro. O silêncio do idoso que já não encontra coragem para dizer que precisa de companhia, que tem fome, que sente medo, que perdeu o controlo da sua própria vida. O silêncio perante o filho que lhe rouba parte da sua reforma e que não permite que o idoso receba visitas, como forma de encobrimento dos seus desvarios. Este é um silêncio que nos compromete a todos, porque somos irmãos da mesma comunidade, partilhamos a mesma história e pertencemos à mesma família humana. Não existe neutralidade quando alguém vulnerável sofre em silêncio. O silêncio deles é responsabilidade nossa.

É por isso que a campanha O Silêncio tem Voz começa nas escolas, esse lugar onde se aprende não apenas matemática, línguas ou ciência, mas o verdadeiro sentido da cidadania. As escolas são laboratórios de futuro: ali se formam consciências, valores e atitudes. Queremos transformar o espaço escolar numa comunidade criativa e vigilante, onde alunos, professores, funcionários e famílias se reconheçam como agentes de mudança. Queremos que cada escola seja uma sentinela, capaz de identificar sinais de abuso e de agir com responsabilidade. Que os alunos não vejam a defesa dos idosos como um tema distante, mas como um dever cívico que começa agora. Que os professores encontrem estratégias pedagógicas para desenvolver nos jovens a sensibilidade necessária para ouvir o silêncio dos outros. Que os funcionários e auxiliares compreendam que também são parte desta rede de proteção. Que as famílias reconheçam que a educação para o cuidado deve ser partilhada, discutida e vivida no quotidiano.

Para que isto aconteça, precisamos de cultivar uma nova gramática: a gramática da paz ativa, do cuidado atento, da denúncia do mal sempre que este tenta disfarçar-se de normalidade. Uma cultura onde os alunos aprendam a ser “articuladores do possível”, pessoas capazes de transformar a empatia em ação. É necessário ensiná-los que cuidar dos idosos não é apenas um gesto de bondade, mas um dever social. E que denunciar abusos não é causar problemas, mas impedir que eles cresçam. Queremos formar jovens que compreendam que a paz não se resume à ausência de violência; a paz constrói-se através de escolhas diárias, através da coragem de agir quando outros se calam, através da decisão de proteger os mais vulneráveis.

Durante décadas, a defesa dos idosos foi marcada por omissões profundas, não só devido à escassez de recursos, mas, sobretudo, por uma ausência de articulação entre o impulso cívico e a educação. Muitas iniciativas morreram antes de nascer porque faltou quem educasse as comunidades para a participação ativa. Faltou quem transformasse a sensibilidade em compromisso, quem explicasse que a proteção não é apenas tarefa de instituições públicas, mas uma responsabilidade coletiva. Quando esse espaço educativo fica vazio, torna-se terreno fértil para abusos, para desatenções graves, para impulsos momentâneos que resultam em violência, ou mesmo para decisões que excluem os idosos do centro da vida comunitária. Preencher esse espaço é o grande objetivo desta campanha.

Queremos, por isso, construir uma sociedade que saiba escutar. Uma sociedade que reconheça que o silêncio dos idosos não é escolha, mas consequência. Consequência de fragilidades acumuladas, de dependências que cresceram, de relações que se perderam, de receios que se criaram. Queremos transformar esse silêncio num ponto de partida: o ponto de partida para uma mudança cultural profunda, que devolva aos idosos aquilo que nunca deveria ter sido posto em causa: a dignidade plena. Queremos que cada gesto de atenção seja uma pequena quebra no muro do silêncio; que cada denúncia seja um passo para a justiça; que cada escola que se envolve nesta campanha se torne num farol de cuidado.

Quando a comunidade fala, o silêncio deixa de ser destino. Quando a escola educa para o respeito e a empatia, a violência recua. Quando os jovens aprendem a agir, a dignidade dos mais velhos torna-se uma prioridade evidente. A campanha O Silêncio tem Voz é, acima de tudo, um convite: um convite para que cada um de nós tome consciência do poder que tem de mudar realidades. Um convite para que falemos pelos que já não conseguem fazê-lo. Um convite para que sejamos presença onde, antes, havia abandono e voz onde, antes, havia silêncio.

O silêncio dos idosos tem voz. E essa voz, a partir de hoje, é a nossa.

 

Eduardo Duque

Presidente da Comissão de Proteção ao Idoso
Professor Universitário